Quarta-feira, 16.05.12
Ensinaram-me, há muito tempo, que uma das funções objectivas do Estado passa pela promoção de formas éticas de comportamento na comunidade nacional. Olhando para isto, para esta lição de política rasteira mal explicada e indecorosa, vemos que hoje o que se fomenta é exactamente o seu oposto: quanto menos clara for a nossa actuação, melhor nos aguentamos na borrasca. Com exemplos destes, não nos venham pedir milagres.

Na via do aperto, a do colete em que nos agarraram, a solução passa por cumprir escrupulosamente os critérios definidos pelo exterior e ficar a contemplar a nossa imperiosa desfaçatez de só nos sairmos bem por força da incauta necessidade nossa e por força da incauta necessidade imposta pelos outros, ainda que os outros nos sejam indiferentes mal se ponham daqui para fora. O empréstimo, por exemplo, a juros pouco modestos, é agonia certa para um moribundo que não se sabe ainda se sofrerá da tal eutanásia predita ou se sofrerá de um milagre medicinal. Mas se uma imagem vale mais do que mil palavras, ou melhor, se uma máxima vale mais do que mil explicações, hoje penso que o povo tem razão, ainda que a razão que tenha raramente seja de boa aplicação ou, como diz um certo fenómeno de massa, seja coisa que nem sempre lhe assiste. De facto, não há duas sem três, ainda que à terceira, acrescento eu como por aí também se diz pela boca do bom povo, também possa ser de vez. Outros, mais cínicos, diriam agora que a história se repete. Claro que no cinismo há uma primeira vez feita tragédia e uma segunda, dizem alguns, feita comédia. Mas cair na terceira, como nós infantilmente caímos, já só pode ser, na minha modesta e humilde opinião, um problema de amor não correspondido. Isto claro, se eu agora fosse um romântico. Um incorrigível e desnaturado romântico.
Terça-feira, 15.05.12
80% dos gregos afirma querer continuar no euro. Contudo, uma maioria deles parece também querer insistir no voto em partidos extremistas cuja única solução parece ser a saída do euro. Um velho ditado popular diz que o pessimista queixa-se do vento, que o optimista espera que o vento mude de direcção e que o realista se limita a ajustar as velas. No caso exemplar grego, parece que a coisa funciona de modo diferente: o pessimista grego queixa-se do barco, o optimista grego foge do barco e o realista grego rebenta com o barco.
Sexta-feira, 11.05.12
A vergonha no Estado continua de vento em popa. Depois de alguns funcionários públicos terem garantido a manutenção dos seus subsídios (uma medida incompreensível face ao argumento da urgência nacional), sabe-se agora que mais algumas empresas e institutos públicos vão ficar à margem das reduções salariais já em vigor (entre os 3,5% e os 10%) e que, inclusive, alguns dos seus gestores não vão ser abrangidos pelo tecto salarial mensal sugerido pelo novo estatuto dos gestores públicos e que ronda os sete mil euros. É sintomático que o Estado continue a tratar o que é igual de forma diferente. E é sintomático que seja este mesmo Estado (ou Governo) a promover a criação de castas dentro dos seus colaboradores. No fundo, o que aqui se atesta e testemunha, é que neste país as excepções não só confirmam as regras, como também se tornam, rapidamente, em regras por si próprias.
Quinta-feira, 10.05.12

Não podemos assobiar para o lado e fazer de conta que não aconteceu nada nas secretas portuguesas. Isso seria um modo ridiculamente simples de renunciar às nossas responsabilidades colectivas perante um abuso muito perigoso perpetrado por gente muito perigosa. Porque o problema aqui não é, ao contrário do que se pode julgar, de natureza processual e institucional ou de relacionamento (falta de transparência, para não chamar outras coisas piores) entre pessoas e instituições. O problema aqui é, sobretudo, político porque envolve a alta política e negociatas sortidas de onde se tiraram dividendos de informação privilegiada e que devia estar protegida. E isto sem contar com a utilização imprópria de informações sobre a actividade (ou pior) de cidadãos portugueses. O que se sucedeu não foi grave: foi extremamente grave.

Com a falta de motivos de maior interesse, o futebol doméstico entretém-se a inventar. Todos os dias, enormes capas de jornais fabricam leilões, reforços, pseudo-reforços, desejos, sonhos, regressos e abstrusas impossibilidades para enganar e distrair incautos. A actual estratégia resume-se em dois objectivos: primeiro, continuar a alimentar vendas num período morto; segundo, aguardar que chegue o estágio da selecção para deambular por terras ucranianas e polacas à procura de descobrir quantas vezes por dia Ronaldo se penteia (um problema nacional ainda não resolvido), quantas vezes Nani arrota à mesa (e se baixinho ou com elevada sonoridade) ou o que significam as inestéticas tatuagens de Meireles (tenho uma teoria, mas prefiro não a revelar). Neste mundo encantado que nos aguarda, quase de certeza inundado por doses maciças de chauvinismo da pior espécie, Junho pode ser um óptimo mês para se ir de férias.
Quarta-feira, 09.05.12
Aforismo de um tempo velho: "Eu nunca me engano e raramente tenho dúvidas".
Aforismo de um tempo novo: "Eu não minto, não engano nem ludibrio os portugueses".
De uma perspectiva (exclusivamente) técnica, este ministro das finanças parece um desastre. De uma perspectiva (exclusivamente) política, este ministro das finanças é um desastre.

Neste dia da Europa – que há nela, Dr. Barroso, para comemorar? – o projecto europeu é uma sombra das ideias dos seus pais fundadores e um emaranhado de condições e contradições impostas de cima e não construídas de baixo. Enquanto definhámos, enquanto sentimos o tapete fugir, não nos espantemos que o Dr. Soares, horrorizado, se sinta a mais nesta peça com actores desconhecidos.

A desgraça dos outros não deve ser uma espécie de felicidade nossa. Por isso, não consigo entender certos sentimentos pirómanos que por aí andam e muito menos os foguetes de euforia que se atiram. Os que julgam que a vida ficará melhor, por via de um qualquer milagre, depois de se rasgarem compromissos assumidos, enganam-se redondamente. Preparem-se porque o que aí vem é muito pior.
Sexta-feira, 04.05.12
Vivemos fascinados com a tecnologia de ponta que promete desbravar novos mundos como se uma quimera nos esperasse no fim da narrativa e da criatura tal como a conhecemos. O mundo vive suspenso na possibilidade iminente de criar uma sociedade perfeita e um novo homem fruto da genética, da biotecnologia e de novos, e velhos, processos de engenharia social.
Nunca como hoje se falou tanto em mundo tecnológico. E nunca como hoje se esteve tão perto da criação de “estirpes” mais puras tanto do agrado de certos loucos do século passado, que sem terem os meios sabiam muito bem o que queriam dos fins. Por isso, é bom que se entenda a tecnologia como um bem que é mal e um mal que é bem e que, não podendo ser apenas uma coisa ou outra, é as duas em simultâneo.
Num futuro próximo – ou será já presente? –, perante a escassez dos recursos, o apocalipse e o armagedão, a tensão social e a globalização das atípicas e de outras coisas piores, o novo homem forjado nos computadores dos laboratórios virá preparado para resistir às novas doenças, ao efeito estufa, aos novos cancros e aos raios ultravioleta se preciso for, pois tal como anteriormente ele foi capaz de fazer viver mais tempo e fazer morrer mais depressa, ele será moldado ao ambiente e o ambiente moldado à sua medida.
Então, o novo homem dominará o velho homem. O processo será rápido, pacífico ou talvez não, porque o novo homem começará apenas por ser mais alto, mais forte e mais inteligente. Com o tempo e com a impossibilidade social de todos serem iguais o homem criará outros homens – menos altos, menos fortes e menos inteligentes –, de acordo com o tecido social, de características próprias e capaz de executar todas as funções e tarefas indispensáveis para a sociedade.
Num ápice, o tal “admirável mundo novo” de Huxley cercar-nos-á como a matilha faz à presa até lhe sentir o bafo para depois lhe depositar as garras e os dentes. Será assim que se chegará ao fim da História que tantos, outrora, noutros tempos, se arriscaram a prever. E nós, então feitos outra raça, outra espécie, outra “coisa”, tomando “soma” ou outra droga ou calmante, seremos meras criaturas estereotipadas em Alfas, Betas, Deltas, Gamas ou Epsilões e aquilo que outros, de outras castas, de outras colheitas e de outras estações, decidirem por nós. Tudo será condicionado e mecanizado; tudo terá um fim e um princípio num movimento global que acabará por ser perpétuo e, por ironia do destino, irrepreensível e inquestionável onde Deus será morto pela tecnologia – agora feita doutrina –, e pelo ciúme das máquinas e dos “bugs” produzidos pelo sistema. Nada ficará ao acaso porque tudo já estará escrito e descrito, sem mobilidade, sem conflito, hermeticamente fechado e decidido. Irremediavelmente decidido.
Haverá, então, um novo homem feito máquina (ou uma nova máquina feita homem), mas não haverá a imprevisibilidade, não haverá o ódio, nem o defeito, nem o sonho, nem a esperança, nem outras utopias, nem o diálogo puro e desinteressado, nem nenhuma conduta desviada; haverá vida e haverá morte, mas não haverá memória nem haverá alma: somente um prazo de validade e uma existência sem interesse, sem motivação e sem enredo; não haverá bons, não haverá maus; não haverá amor, cumplicidade ou imaginação. No fim haverá perfeição...mas não haverá liberdade.
Escrito no DN algures em 2001 ou 2002:
Quinta-feira, 03.05.12

Enquanto o Pingo Doce serve de saco de pancada para uma certa esquerda que não compreende o mundo onde vive, o DN do continente mantém no ar a mega-investigação que conduziu às contas do BPN e que só terminará no fim da semana. Ler o que ali vai – verdadeiro e exaustivo jornalismo de investigação – arrepia e espanta. Arrepia pelos valores envolvidos na trama, no roubo e na fraude consentida e instituída (qualquer coisa que pode ser superior a 8 mil milhões de euros); e espanta pela suposta “boa gente” que por ali se banqueteou.
Se o Pingo Doce mostrou que a pobreza, que infelizmente por aí alastra e abunda, releva (por vezes) o que há de pior em nós, o BPN mostrou melhor que na verdadeira rapinagem os de fato e gravata são bem piores.
Quarta-feira, 15.02.12
No dia em que a tróica aterra para avaliar contas, índices e indicadores, boa parte dos portugueses está agitada e absorvida pelo mundo da bola. Isto tem que ver com dois motivos principais: primeiro, porque o Benfica joga esta noite para a Liga dos Campeões sob previsões de frio e muita neve e, segundo, pela inevitável chicotada sportinguista que tem levado a imaginação indígena ao topo do céu. A bola mantém, como se comprova, uma função social essencial: entretém o pessoal e faz esquecer um pouco o drama indígena o que, em circunstâncias normais, não tem mal absolutamente nenhum. Marx dizia que a religião era o ópio do povo porque o alienava, porque o desviava das suas verdadeiras causas e porque o orientava para o domínio do espiritual e do intangível. Não vou tão longe e não digo que o futebol seja igual, embora um certo fanatismo me pareça ser de todo irracional e incompreensível e certos assuntos merecedores de um longo e inevitável bocejo. Mas reconheça-se que dá jeito haver jogos do Benfica e as infinitas e risíveis trapalhadas do Sporting. É que assim quase ninguém dará pela chegada da tróica e, imagino, quase ninguém dará pela sua partida. O que não sendo necessariamente bom, também não é necessariamente mau.
Terça-feira, 14.02.12

Espero que os livros, para além de cores e encadernações modernas, também levem ouro ou prata. Nunca se sabe se em caso de necessidade não dão para derreter e fazer uns trocos. E se queimar livros ainda pode ser considerado uma heresia, parece que queimar dinheiro não o é. O que é pena. Mas num país de ricos, onde a austeridade não chega a todos os gabinetes, tudo é graciosamente desculpável. O Dr. Relvas apenas mantém a bitola em ritmo elevado.
Segunda-feira, 13.02.12

Certa gente devia ter tento na língua e vergonha na cara. É o caso dos indefectíveis de Sócrates que passam a vida a infernizar, internamente, os socialistas e, externamente, os restantes portugueses que não têm nenhuma saudade da figura e do que ela representou. Só um nítido problema com a realidade justifica semelhantes dislates e a incessante procura por um protagonismo que há muito devia estar morto e enterrado. Esta gente não se enxerga e muito menos se sente, já que seis anos de drama parecem não ter chegado para um eclipse total. Assim, os fantasmas prosseguem alegremente a sua caminhada entre os mortais, atrapalhando, vociferando e comprometendo. É por isso que não se entende a necessidade de continuamente se dar espaço de opinião a quem se limita a querer ressuscitar um passado de má memória ou a demonstrar porque foi corrido em eleições. Sejamos minimamente sérios. E sejamos minimamente decentes. Já que desta gente nem mínimos se pode esperar.

Não se espantem que as próximas eleições gregas sejam marcadas pela subida estrondosa dos movimentos extremistas de esquerda e, principalmente, de direita. O barril de pólvora, compactado e alimentado pela indiferença e insensibilidade gerais, está lá prontinho a explodir. Só falta mesmo acender o rastilho para a morte, não alegórica, do berço da nossa civilização e dos princípios pelos quais nos regemos. Depois deles, depois dos gregos, outros se seguirão. A Grécia é somente uma previsível primeira vítima e um exemplo declarado do nosso declínio civilizacional. E se do caos nasce sempre uma nova ordem, é também por isso que nos devemos preocupar. Convém ficar atento.
Sexta-feira, 10.02.12

Debaixo deste frio já invernal, a rua mantém-se viva e serena. Fora a azáfama natural de uma manhã quotidianamente igual a muitas outras, só os rostos carregados, as olheiras naturais, os casacos pesados e os passos apressados que fogem dos ligeiros pingos da chuva denunciam a confiança e a certeza de um novo dia. Gosto de sentir as manhãs em profunda aceleração porque a vida, num estado normal, é um prodígio que merece atenção. E gosto de sentir que na rua, enquanto a exploro também com destino certo, somos todos rostos de uma mesma multidão.
Quinta-feira, 09.02.12

É bom que frequentemente nos lembremos que em democracia, devemos temer a magistratura e não os magistrados. Quem julgou que devia ser o contrário, enganou-se redondamente. Certos direitos, e já agora certos deveres, são inalienáveis. E certos fins não podem justificar os meios. A bem da civilização em que nos fundamos, a bem dos princípios que defendemos, chega ao fim esta triste cruzada individual. Foi ele que colheu a tempestade que semeou.

Ontem as declarações de Merkel passaram quase incólumes perante o situacionismo estabelecido entre os partidos do arco do poder. Hoje, com um amanhecer mais violento e mais incisivo, e que de uma maneira mais ou menos obtusa, colocava toda a iniciativa política de um país em causa, as coisas mudaram, finalmente, de tom. Agora parece que certas declarações já são motivo de repúdio e são um indício claro de ingerência em assuntos internos. O que uma boa noite de sono faz!
Deve ter havido novos problemas de tradução. O que começa a ser recorrente e corriqueiro. Destaque-se o facto de as declarações terem sido emitidas por um porta-voz. Sempre se pode, mais tarde, vir ainda dizer que não era bem aquilo que se queria dizer. E assim vamos cantando e rindo.