Segunda-feira, 14 de Março de 2011

 

A crise já andava por aí. Há alguns anos. Seguramente, há mais de uma década e mais intensa pelo menos desde 2008, altura da grande crise financeira que começou a afectar as empresas e o seu acesso ao crédito e que colocou em risco alguns dos principais bancos e muitas pequenas, médias e grandes empresas.

Contudo, essa crise não tinha atingido particularmente os funcionários públicos nem aqueles que, trabalhando no privado, tinham empregos seguros e recebiam a tempo e horas, fora do anormal funcionamento das empresas em permanente dificuldade. E isso deveu-se à baixa das taxas de juro do crédito à habitação que permitiu a muitos portugueses “ganhar” alguns milhares de euros por ano, mesmo com aumentos nulos nos anos anteriores. Existia uma crise real – de crescimento, essencialmente – mas não era sentida por todos.

Mas as coisas são como são e ninguém devia esperar um assombro continuado. Atraídos pelo milagre socrático que aumentou os funcionários públicos em ano eleitoral para quase no imediato os ir colectar (com juros elevadíssimos) directamente ao bolso, os funcionários públicos acreditaram piamente num governo que garantia que a crise seria ultrapassada com distinção, mesmo que essa crise fosse “lá de fora”, do “neoliberalismo” e de outros papões do género que “nos obrigavam a resgatar bancos em nome da nossa soberania”. Só que as coisas mudaram, porque o mundo muda mesmo que Portugal não mude nada. Os juros vão aumentar as prestações à habitação e os portugueses vão sentir ainda mais no bolso as consequências desta subida, associada à forte diminuição do seu poder de compra consequência das medidas de austeridade sem fim promovidas pelo governo. Ficamos sem margem de manobra. E o resultado será um empobrecimento colectivo preocupante uma vez que o governo vê como única saída para a crise ir buscar dinheiro aos mesmos de sempre, em vez de cortar efectivamente na despesa desnecessária ou ir buscar a outros lados.

Num país que tem uma distribuição muito desigual da sua riqueza e anémico no seu crescimento, o governo de Sócrates apenas amplia, diariamente, uma dura realidade que terá consequências imprevisíveis no futuro e que, por agora, dramaticamente, culminará numa dura, e pouco correcta, campanha eleitoral. Sair daqui sem uma definição clara na política portuguesa, é meio caminho andado para que o caos chegue, definitivamente, às ruas.



publicado por Bruno Miguel Macedo às 10:52 | link do post | comentar

Publius Cornelius Tacitus
To ravage, to slaughter, to usurp under false titles, they call empire; and where they made a desert, they call it peace.
Junho 2017
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3

4
5
6
7
8
9
10

11
12
13
14
15
16
17

18
19
20
21
23
24

25
26
27
28
29
30


posts recentes

A síndrome socialista

Soltar os cães

Um argumento

Regressando

Um papel

A cartilha

Prometeu

Um ou dois milagres

Uma nomeação

Cresçam

arquivos

Junho 2017

Março 2017

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Maio 2015

Abril 2015

Setembro 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

tags

anáfora

antonomásia

benevolentes

blanchett

bloco

cate

charme

dench

djisselbloem

eufemismo

eurogrupo

guerra

gwyneth

helen

jonathan

judi

littell

metáfora

mirren

paltrow

perífrase

porto

prosopeia

renda

sela

socialismo

twitter

ward

todas as tags

links
blogs SAPO
subscrever feeds