Quinta-feira, 24 de Março de 2011

 

 

I – Com a demissão do primeiro-ministro, a primeira fase do embate político passará, no imediato, pelo jogar das culpas pela crise política de uns para os outros. A oposição dirá que é por culpa do governo. O governo dirá que é por culpa da oposição. Ninguém dirá que toda a gente desejava estas eleições, incluindo o próprio governo, o seu principal e verdadeiro agente instigador.

 

II – Ao PR restará como única solução marcar novas eleições. Porque não há consenso possível. Como Sócrates não desiste e Passos Coelho e Portas jamais entrariam num governo com ele, e partindo do princípio que a esquerda parlamentar embora maioritária está carregada de exóticos e líricos, não se vê outra solução possível.

 

III – Apesar da demissão, o governo manter-se-á em funções, coisa que muita gente parece por agora esquecer. Terá assim uma máquina gigantesca ao seu serviço que utilizará sem qualquer comedimento e escrúpulo. Nunca como até agora se irá sentir a força do aparelho ideológico e do aparelho repressivo do estado, quer sobre a propaganda dos seus “grandes feitos”, quer sobre a vitimização das coisas “menos conseguidas”, quer na intriga temível dos contra-ataques socialistas.

 

IV – Muitos ministros que julgávamos não existir, vão-nos entrar casa adentro exibindo minudências sem qualquer sentido. Isto terá três objectivos: fazer de conta que sempre existiram, mostrar a quem manda que são solidários e iludir o povo com promessas.

 

V – Mas a verdadeira luta política ficará a cargo dos ministros mais perigosos deste governo: Silva Pereira, Santos Silva, Teixeira dos Santos, Jorge Lacão e, claro, do próprio José Sócrates. Serão eles mais do que ninguém quem levará à liça a estratégia há já algum tempo delineada. Sim: porque esta demissão foi pensada e devidamente levada a efeito, com todo um timing rigorosamente cumprido. Há muita coisa que ainda desconhecemos.

 

VI – No próprio PS, com excepção de Francisco Assis, poucos aparecerão para além dos que querem entrar nas sempre apetecíveis listas. Os restantes, participarão na campanha, a pensar na sua sobrevivência política e no próximo cavalo que liderará a corrida, depois da derrota que todos eles internamente esperam e que sabem ser inevitável.

 

VII – A campanha eleitoral será uma das mais duras de sempre, porque as acusações entre ambos os lados da barricada resvalarão para a ofensa, para a mentira e para a vitimização. Tudo devidamente condimentado com propaganda e com artificialidade. Muito ruído e pouca lucidez, como convém a um governo que não tem absolutamente nada para mostrar. É aqui que o PSD terá de ter muito cuidado para não entrar neste jogo perigoso.

 

VIII – O principal problema para a campanha da oposição será mesmo saber qual a situação real do país e das suas contas públicas, devido à manipulação dos números e das estatísticas. Sem saber a verdade dos factos, de pouco ou nada adianta fazer propostas ou atirar medidas.

 

IX – A oposição apesar da união revelada hoje, manter-se-á dividida: de um lado o PSD e o CDS interessados no poder e por isso com sentido de responsabilidade. Do outro lado, o PCP e o BE em luta entre si e contra o mundo, que é o mesmo que dizer contra todos os outros. O PS vai tentar aproveitar esta clara divisão.

 

X – O dia das eleições trará muita afluência às urnas. Quando as coisas apertam os portugueses lembram-se que têm o seu destino colectivo nas mãos e na sua participação. Depois das elevadas abstenções de eleições anteriores, talvez seja aqui visível um exemplo de crescimento da nossa maturidade democrática e um sinal que não devemos deixar para os outros aquilo que nós mesmos podemos ajudar a decidir.

 

XI – O PSD ganhará folgadamente as eleições. Mas precisará do CDS para ter uma maioria estável. Passos Coelho será primeiro-ministro e Portas novamente ministro. Resta saber se a coabitação entre duas personalidades fortes levará o país a bom porto.

 

XII – O PS sofrerá uma enorme derrota nas urnas, perdendo votos para todos os partidos. Sócrates apresentará a sua demissão e convocará um novo congresso. O PS iniciará então uma enorme travessia do deserto, onde a purga interna sobre os homens fortes de Sócrates será uma realidade. Dos escombros da guerra civil, das suas cinzas, terá que renascer um PS capaz de reconquistar a confiança dos portugueses depois do desastre da era Sócrates.

 

XIII –Sócrates desaparecerá para sempre do mapa político português e o país ficará a conhecer o verdadeiro desastre das contas públicas portuguesas.

 

XIV –Demorará pelo menos dez anos a recuperar este país. E isto se houver coragem real de mudar aquilo que precisa mesmo de mudar.



publicado por Bruno Miguel Macedo às 00:13 | link do post | comentar

Publius Cornelius Tacitus
To ravage, to slaughter, to usurp under false titles, they call empire; and where they made a desert, they call it peace.
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