Quinta-feira, 21 de Janeiro de 2016

askhole.jpgA natureza humana só surpreende quem anda distraído. Nada de original, portanto, ver o Estado manter em exibição este acelerado processo de destruição das liberdades e garantias dos cidadãos a troco do combate à presumida “evasão fiscal”. Aliás, há sempre uma contrapartida evidentemente saborosa que explica às massas a necessidade de ir sempre mais além nas funções do Estado. Às vezes é a “evasão fiscal”, às vezes é a “saúde pública”, às vezes é “a mudança de mentalidades”, às vezes é o que lhes dá na gana.

Seja como for, a partir de agora, todos somos suspeitos e não há necessidade de recorrer a um tribunal para vermos a nossa vida devastada por um qualquer senhor ou senhora das finanças. Neste caminho tortuoso, rumo a um fascismo encapotado em que o Estado verifica todos os aspectos da nossa vida individual e colectiva, bem podemos espernear e dizer basta, que isso não tem qualquer consequência.

Na verdade, nós adoramos este Estado omnipresente com controladores instalados a cada esquina. Adoramo-lo no modo como nos ensina a comer, a viver, a ter saúde, a ser melhor, porque assumimos como inevitável esta cavalgada criadora de um “homem novo” e de um Estado policial.

Eu, que dispensava esta amabilidade que me toma por parvo e idiota chapado e que não tenho interesse nenhum em me tornar um “homem novo” (ainda menos se baseado nas abstrusas ideias deles), estou na onda, não porque queira ir, mas porque é tão grande que é quase impossível lhe resistir. E eu tento humildemente resistir.

Um dia, e esse dia não estará longe, o Estado estará, vestido de gala, instalado dentro de casa a tomar conta de mim, a tomar conta de nós. Nesse dia, seremos certamente todos muito iguais; impolutos; saudáveis; mental, económica e culturalmente capazes; e ambientalmente irrepreensíveis. Mas não teremos aquilo que outrora tanto valorizávamos: liberdade. Liberdade de podermos escolher, liberdade de podermos ser diferentes, liberdade de podermos ser…livres e fazer outras opções.

Philip Roth, esse mestre, disse um dia que a humanidade colocava muita esperança na inteligência dos homens, mas que isso [infelizmente] não anulava a própria natureza humana. Como se vê, não anula mesmo, até porque ela está e revela-se nos pormenores e na imaginação infindável com que nos obriga às suas certezas absolutas.



publicado por Bruno Miguel Macedo às 15:00 | link do post | comentar

1 comentário:
De Inês a 21 de Janeiro de 2016 às 15:09
Grande verdade...


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Publius Cornelius Tacitus
To ravage, to slaughter, to usurp under false titles, they call empire; and where they made a desert, they call it peace.
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