Quinta-feira, 4 de Fevereiro de 2016

weji.pngAntónio tinha um sonho: ser líder da aldeia. Não o conseguindo com legitimidade, conseguiu-o através de um golpe que meteu umas facções descontentes com a antiga liderança, após uma troca de favores.

Quando chegou ao palácio da aldeia, António quis mudar os móveis, o serviço e o grosso da política de gestão. António queria mudar tudo sem hesitar, porque o tempo era novo, o tempo era diferente.

Para a execução da tarefa, António chamou Mário, um conceituado economista de papel, também conhecido por dizer tudo e o seu exacto contrário. Mário aceitou de bom grado a sugestão e até tinha um plano inicial do agrado de António que havia sido chumbado quando António tentou chegar ao poder pela via legítima. Mas isso não foi problema.

Entretanto, e inebriado pelo sabor do poder, António decidiu que mudar os móveis, o serviço e a política de gestão não era por si só suficiente. Queria agora uma verdadeira revolução que não deixasse nada igual ao que era antes: queria transformar a aldeia num El Dorado. Mário, que antes entendera a revolução como um caminho a evitar, prontamente apresentou um novo plano que deixou António em êxtase e no limite de um orgasmo. O plano era simples e muito prático: distribuir mais pela aldeia, arrecadar menos dos aldeões e ser exactamente o contrário do plano inicial. Parecia a fórmula da alquimia nunca encontrada.

Tudo corria bem, até que António percebeu que dependia de forças que não controlava para a execução do mirabolante plano. Nesse momento, António decidiu espernear, com a ajuda de um tal Pedro e de um tal João, e gritar que havia um complô contra ele. O mundo inteiro unia-se para lhe fazer a vida negra, foi esta a sua nobre conclusão. Começou então em reuniões com as aldeias vizinhas, mas as aldeias vizinhas não pareciam estar pelos ajustes. Na verdade, António dependia não de forças de estranhas, mas de um pacto entre aldeias que lhe garantia dinheiro emprestado e que lhe permitia manter a sua própria aldeia dentro dos limites dessa união de aldeias. Em troca, as outras aldeias exigiam-lhe um mínimo de responsabilidade, um mínimo de credibilidade, e que António lhes pagasse sem falhas, pelo menos enquanto a alquimia não funcionasse e não houvesse ouro suficiente para pagar as dívidas entretanto acumuladas.

Mas António não estava pelos ajustes. E decidiu, numa bela manhã de inverno, partir para a guerra com um conjunto de generais mal preparados (os nossos já conhecidos Mário, Pedro e João), mas muito bons em termos teóricos. Foi munido do espírito de sacrifício e muito incentivado, curiosamente, pelos líderes das facções que o suportavam na aldeia, os nossos ainda desconhecidos Francisco, Jerónimo, Catarina e Mário II (para que não se confunda com o primeiro Mário).

Obviamente que a união que faz a força, e o exército da aldeia, após derrota estrondosa, foi obrigado a regressar às casernas e António, o general desta epopeia, foi obrigado a regressar ao palácio. À sua espera estavam os que outrora tanto o incentivaram, Francisco, Jerónimo, Catarina e Mário II, agora já nossos conhecidos, que prontamente lhe perguntaram pelas vitórias que tão faustosamente lhes prometera. António, caído em desgraça, simulou uma enxaqueca e abandonou a reunião. Lá fora, estava reunida a comissão de moradores da aldeia. O ambiente não era bom, mas António ainda tinha um truque na manga: iria transformar mais uma derrota numa vitória.



publicado por Bruno Miguel Macedo às 11:37 | link do post | comentar

Publius Cornelius Tacitus
To ravage, to slaughter, to usurp under false titles, they call empire; and where they made a desert, they call it peace.
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