Sexta-feira, 9 de Novembro de 2012

 

Ruth: I miss what we had.
Nathaniel: So find it again.


Há, perpassando por toda a nossa sociedade, um ressentimento crescente, a pior forma de encarar a vida. Esse ressentimento manifesta-se em toda a parte e em todos os patamares: no drama do desemprego, na crise financeira, na sensação de abandono, na interiorização da impotência face ao inevitável, no ruir dos projectos individuais e familiares. Ele, o ressentimento, anda por aí, cavalgando a onda, ganhando adeptos, recusando aliados e fugindo num caminho fácil. Mas o ressentimento subverte a nossa percepção e impede-nos de ver com clareza, confundindo-se facilmente com a inveja aos outros e ao que eles têm, criando ainda aquela necessidade de igualdade inalcançável, junto daqueles que antes não pensavam da mesma forma.

Dir-me-ão que os homens nascem iguais. Ou que deviam nascer iguais. A subversão destas ideias cria um paradoxo, principalmente à esquerda, impossível de resolver. Mas aqui o pensamento até é outro: se uns têm, porque é que eu não hei-de ter? Se uns mantêm, porque é que eu não hei-de continuar a ter? Estas são as perguntas que se fazem e as respostas saem rápidas na ponta da língua como saídas fáceis: revolução, nacionalização, sublevação, julgamentos sumários e outras dentro do género. No fundo, toda e qualquer saída passa por eliminar o “problema” com a maior eficiência possível.
Mas o pior mesmo, não é sentir esse ressentimento junto das classes populares. É senti-lo junto da classe média, onde a força da crise bateu com entusiasmo acrescido e as pessoas sentem mais de perto os seus efeitos: seja porque perdem dinheiro, seja porque vivem pior, seja porque têm menos conforto, seja porque compram menos coisas, seja porque o emprego sumiu-se na “crise”. Tudo isto são sinais da degradação acelerada de uma classe que se esfrangalha e se divide entre os que continuam nela e os que pura e simplesmente desaparecem ou vão desaparecer dela. É com isto que teremos de lidar. Com este ressentimento instituído e assente nas saídas agradáveis, como se houvesse saídas agradáveis, um terreno muito fértil para a demagogia. E isto já nem será uma mera hipótese académica. Com a falta de preparação da classe política, tudo isto já é mais que uma mera possibilidade. É quase uma profunda certeza.


publicado por Bruno Miguel Macedo às 10:53 | link do post | comentar

Publius Cornelius Tacitus
To ravage, to slaughter, to usurp under false titles, they call empire; and where they made a desert, they call it peace.
Outubro 2017
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6
7

8
9
10
11
12
13
14

15
17
18
19
20
21

22
23
24
25
26
27
28

29
30
31


posts recentes

Os incêndios que matam pe...

A síndrome socialista

Soltar os cães

Um argumento

Regressando

Um papel

A cartilha

Prometeu

Um ou dois milagres

Uma nomeação

arquivos

Outubro 2017

Junho 2017

Março 2017

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Maio 2015

Abril 2015

Setembro 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

tags

anáfora

antonomásia

benevolentes

blanchett

bloco

cate

charme

dench

djisselbloem

eufemismo

eurogrupo

guerra

gwyneth

helen

jonathan

judi

littell

metáfora

mirren

paltrow

perífrase

porto

prosopeia

renda

sela

socialismo

twitter

ward

todas as tags

links
blogs SAPO
subscrever feeds