Quinta-feira, 10 de Maio de 2012

 

Não podemos assobiar para o lado e fazer de conta que não aconteceu nada nas secretas portuguesas. Isso seria um modo ridiculamente simples de renunciar às nossas responsabilidades colectivas perante um abuso muito perigoso perpetrado por gente muito perigosa. Porque o problema aqui não é, ao contrário do que se pode julgar, de natureza processual e institucional ou de relacionamento (falta de transparência, para não chamar outras coisas piores) entre pessoas e instituições. O problema aqui é, sobretudo, político porque envolve a alta política e negociatas sortidas de onde se tiraram dividendos de informação privilegiada e que devia estar protegida. E isto sem contar com a utilização imprópria de informações sobre a actividade (ou pior) de cidadãos portugueses. O que se sucedeu não foi grave: foi extremamente grave.



publicado por Bruno Miguel Macedo às 16:50 | link do post | comentar

Com a falta de motivos de maior interesse, o futebol doméstico entretém-se a inventar. Todos os dias, enormes capas de jornais fabricam leilões, reforços, pseudo-reforços, desejos, sonhos, regressos e abstrusas impossibilidades para enganar e distrair incautos. A actual estratégia resume-se em dois objectivos: primeiro, continuar a alimentar vendas num período morto; segundo, aguardar que chegue o estágio da selecção para deambular por terras ucranianas e polacas à procura de descobrir quantas vezes por dia Ronaldo se penteia (um problema nacional ainda não resolvido), quantas vezes Nani arrota à mesa (e se baixinho ou com elevada sonoridade) ou o que significam as inestéticas tatuagens de Meireles (tenho uma teoria, mas prefiro não a revelar). Neste mundo encantado que nos aguarda, quase de certeza inundado por doses maciças de chauvinismo da pior espécie, Junho pode ser um óptimo mês para se ir de férias.



publicado por Bruno Miguel Macedo às 16:47 | link do post | comentar

Quarta-feira, 9 de Maio de 2012

Aforismo de um tempo velho: "Eu nunca me engano e raramente tenho dúvidas".
Aforismo de um tempo novo: "Eu não minto, não engano nem ludibrio os portugueses".



publicado por Bruno Miguel Macedo às 19:12 | link do post | comentar

De uma perspectiva (exclusivamente) técnica, este ministro das finanças parece um desastre. De uma perspectiva (exclusivamente) política, este ministro das finanças é um desastre.



publicado por Bruno Miguel Macedo às 19:11 | link do post | comentar

 

Neste dia da Europa – que há nela, Dr. Barroso, para comemorar? – o projecto europeu é uma sombra das ideias dos seus pais fundadores e um emaranhado de condições e contradições impostas de cima e não construídas de baixo. Enquanto definhámos, enquanto sentimos o tapete fugir, não nos espantemos que o Dr. Soares, horrorizado, se sinta a mais nesta peça com actores desconhecidos.



publicado por Bruno Miguel Macedo às 19:10 | link do post | comentar

 

A desgraça dos outros não deve ser uma espécie de felicidade nossa. Por isso, não consigo entender certos sentimentos pirómanos que por aí andam e muito menos os foguetes de euforia que se atiram. Os que julgam que a vida ficará melhor, por via de um qualquer milagre, depois de se rasgarem compromissos assumidos, enganam-se redondamente. Preparem-se porque o que aí vem é muito pior.



publicado por Bruno Miguel Macedo às 19:07 | link do post | comentar

Sexta-feira, 4 de Maio de 2012

Vivemos fascinados com a tecnologia de ponta que promete desbravar novos mundos como se uma quimera nos esperasse no fim da narrativa e da criatura tal como a conhecemos. O mundo vive suspenso na possibilidade iminente de criar uma sociedade perfeita e um novo homem fruto da genética, da biotecnologia e de novos, e velhos, processos de engenharia social.
Nunca como hoje se falou tanto em mundo tecnológico. E nunca como hoje se esteve tão perto da criação de “estirpes” mais puras tanto do agrado de certos loucos do século passado, que sem terem os meios sabiam muito bem o que queriam dos fins. Por isso, é bom que se entenda a tecnologia como um bem que é mal e um mal que é bem e que, não podendo ser apenas uma coisa ou outra, é as duas em simultâneo.
Num futuro próximo – ou será já presente? –, perante a escassez dos recursos, o apocalipse e o armagedão, a tensão social e a globalização das atípicas e de outras coisas piores, o novo homem forjado nos computadores dos laboratórios virá preparado para resistir às novas doenças, ao efeito estufa, aos novos cancros e aos raios ultravioleta se preciso for, pois tal como anteriormente ele foi capaz de fazer viver mais tempo e fazer morrer mais depressa, ele será moldado ao ambiente e o ambiente moldado à sua medida.
Então, o novo homem dominará o velho homem. O processo será rápido, pacífico ou talvez não, porque o novo homem começará apenas por ser mais alto, mais forte e mais inteligente. Com o tempo e com a impossibilidade social de todos serem iguais o homem criará outros homens – menos altos, menos fortes e menos inteligentes –, de acordo com o tecido social, de características próprias e capaz de executar todas as funções e tarefas indispensáveis para a sociedade.
Num ápice, o tal “admirável mundo novo” de Huxley cercar-nos-á como a matilha faz à presa até lhe sentir o bafo para depois lhe depositar as garras e os dentes. Será assim que se chegará ao fim da História que tantos, outrora, noutros tempos, se arriscaram a prever. E nós, então feitos outra raça, outra espécie, outra “coisa”, tomando “soma” ou outra droga ou calmante, seremos meras criaturas estereotipadas em Alfas, Betas, Deltas, Gamas ou Epsilões e aquilo que outros, de outras castas, de outras colheitas e de outras estações, decidirem por nós. Tudo será condicionado e mecanizado; tudo terá um fim e um princípio num movimento global que acabará por ser perpétuo e, por ironia do destino, irrepreensível e inquestionável onde Deus será morto pela tecnologia – agora feita doutrina –, e pelo ciúme das máquinas e dos “bugs” produzidos pelo sistema. Nada ficará ao acaso porque tudo já estará escrito e descrito, sem mobilidade, sem conflito, hermeticamente fechado e decidido. Irremediavelmente decidido.
Haverá, então, um novo homem feito máquina (ou uma nova máquina feita homem), mas não haverá a imprevisibilidade, não haverá o ódio, nem o defeito, nem o sonho, nem a esperança, nem outras utopias, nem o diálogo puro e desinteressado, nem nenhuma conduta desviada; haverá vida e haverá morte, mas não haverá memória nem haverá alma: somente um prazo de validade e uma existência sem interesse, sem motivação e sem enredo; não haverá bons, não haverá maus; não haverá amor, cumplicidade ou imaginação. No fim haverá perfeição...mas não haverá liberdade.

 

Escrito no DN algures em 2001 ou 2002:



publicado por Bruno Miguel Macedo às 16:52 | link do post | comentar

Quinta-feira, 3 de Maio de 2012

 

Enquanto o Pingo Doce serve de saco de pancada para uma certa esquerda que não compreende o mundo onde vive, o DN do continente mantém no ar a mega-investigação que conduziu às contas do BPN e que só terminará no fim da semana. Ler o que ali vai – verdadeiro e exaustivo jornalismo de investigação – arrepia e espanta. Arrepia pelos valores envolvidos na trama, no roubo e na fraude consentida e instituída (qualquer coisa que pode ser superior a 8 mil milhões de euros); e espanta pela suposta “boa gente” que por ali se banqueteou.
Se o Pingo Doce mostrou que a pobreza, que infelizmente por aí alastra e abunda, releva (por vezes) o que há de pior em nós, o BPN mostrou melhor que na verdadeira rapinagem os de fato e gravata são bem piores.



publicado por Bruno Miguel Macedo às 10:27 | link do post | comentar

Publius Cornelius Tacitus
To ravage, to slaughter, to usurp under false titles, they call empire; and where they made a desert, they call it peace.
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