Sábado, 5 de Fevereiro de 2011

O Projecto Farol, uma iniciativa privada, lançou recentemente um estudo que apresentou conclusões preocupantes para os políticos do país. Nesse estudo ficou patente que uma larga maioria dos portugueses desconfia ou confia muito pouco nos políticos (94%), nos governos (90%), nos partidos políticos (89%), na Assembleia da República (84%), nos tribunais (76%), nos sindicatos (74%) e na Administração Pública (75%). Num outro prisma, 46% dos portugueses diz que está pior ou muito pior do que há 40 anos atrás (!) e 58% pior ou muito pior do que há 25 anos. Mais: 78% entende que o país caminha na direcção errada e 58% está convicto que daqui por dez anos viveremos ainda pior. Não deixa de ser interessante verificar alguns pontos de vista porventura antagónicos que os portugueses expressam no estudo e que evidenciam uma maneira de ser e de estar muito portuguesa. Mas há conclusões importantes às quais não devemos ficar indiferentes. E essas prendem-se com a política e com os seus actores, e com o seu infindável rol de contradições. A descredibilização evidente de boa parte da classe política é um sinal incómodo de que algo vai mal no sistema português e na qualidade da nossa democracia. A abstenção dispara para valores malditos e os vendedores de banha de cobra mentem descaradamente para atingir os seus fins, entrando num jogo populista demasiado perigoso e demasiado incendiário, com bons resultados eleitorais, o que não pode significar coisa boa. E eis o cerne da questão: ou todo o sistema político se refunda e se volta para a resolução real dos problemas concretos dos portugueses, dando-lhes os instrumentos e facilitando-lhes a sua vida quotidiana, ou entramos num remoinho sem retorno de onde não escapará ninguém – nem velhos nem novos, nem homens nem mulheres. É nestes moldes que o actual processo de revisão constitucional deveria ser o tal murro na mesa dado pelos políticos sérios que não querem ficar reféns do politicamente correcto nem da mediocridade em que se transformou a nobre arte da política. Nos tempos de dificuldade precisamos todos de coragem e de visão e de falar olhos nos olhos ao povo do país, devolvendo aos políticos a essência da sua arte e a capacidade de transformação responsável. Sem rodeios e sem subterfúgios. Porque perder esta oportunidade não é apenas hipotecar o presente e adiar, sine die, o futuro. É, antes de tudo o resto, cair directo no olho da tempestade e ficar a observar o nosso lento e desesperante suicídio.

Publicado no Jornal da Madeira de 29 de Janeiro de 2011


publicado por Bruno Miguel Macedo às 15:34 | link do post | comentar

Publius Cornelius Tacitus
To ravage, to slaughter, to usurp under false titles, they call empire; and where they made a desert, they call it peace.
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